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Doçaria
Dos pastéis às trouxas.
Inspirada nas antigas lavadeiras saloias (que traziam, à cabeça, as trouxas de roupa que “a freguesa deu ao rol”), Maria Emília Esteves lança em 1952, com um êxito quase imediato, as famosas Trouxas da Malveira, deliciosas tortinhas de pão-de-ló com saboroso creme de baunilha e frutos secos moídos.

A história das trouxas começa nos “segredos” do convento de Odivelas, onde trabalhou durante muitos anos a madrinha de Maria Emília. A simpática senhora, apesar do seu convívio diário com as freiras e respectivas tradições (como a muito apreciada doçaria conventual), não trouxe consigo para a Malveira (terra para onde veio morar já não muito nova) nenhum dos tais “segredos” que se suponha conhecer, tendo aberto “apenas” uma requintada leitaria na Avenida que parecia à época fina demais para a terra (o seu aspecto limpo e requintado deixava desconfiados os potenciais clientes).

Depressa D. Emília de Jesus (era esse o seu nome) se apercebeu do “erro” e, sem desanimar, “lança-se” em novo negócio, desta vez num pequeno espaço junto à passagem de nível a que deu o nome de Tentadora. Aí a história foi outra e D. Emília não tinha mãos a medir para tantos pedidos (pois enquanto o comboio não passava, também não passava ninguém e assim os passageiros de carros e autocarros saíam para “trincar” alguma coisa no pequeno estabelecimento). Então, para a ajudar, a empreendera senhora, chama para junto de si a afilhada e uma velha amiga que com ela trabalhara no convento de Odivelas, D Teresa. Essa sim, conhecedora das receitas e segredos dos doces inventados pelas freiras.

Primeiro foram os pastéis de grão e feijão a tornarem-se o ex-libris da Tentadora, mantendo-se assim por muitos anos, até que D. Teresa começou a fazer as trouxas (as tais tortinhas de pão-de-ló e creme), um doce muito leve e requintado que confeccionava em pequenas quantidades e destinado a uma clientela mais fina. Entretanto D. Teresa morre, mas o segredo das trouxas fica em casa de D. Emília. Maria Emília, sua afilhada, pega então na massa e decide começar a fazer das trouxas a sua especialidade e lança em 1952, precisamente no dia do seu casamento a “marca” que todos conhecemos. De então para cá as Trouxas da Malveira ganharam apreciadores (e outros pontos de venda), tanto que, hoje em dia, pode-se afirmar se só ficou a perder que nunca provou uma…

O Parrameiro Saloio
É único e apenas desta região, mas diz a história foi inventado pelo Mouros que por aqui andaram mais de quatro séculos. Pão doce, em tempos idos adoçado com mel, amassado com sementes de erva doce para lhe trazer sabor requintado, e aromatizado com raspas de limão para lhe dar um aroma com alguma subtileza.

O parrameiro (de côdea brilhante e pegajosa, por ser besuntado com batido de ovo à saída do forno de lenha) tem dois formatos, ambos representam a lua (símbolo do islamismo), um é redondo (representa a lua cheia) e o outro é em forma de ferradura (representa a lua na fase crescente, símbolo oficial do Islão). O parrameiro em forma de ferradura era o preferido dos saloios nos domingos e dias santos, nas feiras, festas e bailaricos. E porquê? Simplesmente porque se interiorizou na gente que ao “trincar” o símbolo do “ocupante” estaria a proceder-se a uma espécie de vingança de 400 anos de ocupação “infiel”.

E foi assim que o parrameiro por cá ficou e se enraizou, tornando-se uma tradição “inevitável” da região saloia. Simples, saboroso, leve e até abençoado.

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